Proibição de celulares na volta às aulas desafia escolas e famílias

MARIANA KOTSCHO/UOL | Notícias

O retorno das aulas foi um dos temas mais buscados no Google na primeira semana de janeiro (01/01 a 08/01). Segundo dados da ferramenta de tendência Google Trends, o interesse pelo regresso dos estudantes teve uma evolução de 100% na última semana. Escolas e especialistas apontam que as principais dúvidas dos pais estão no comportamento e readaptação ao período de estudos dos filhos, principalmente o desapego dos celulares.

Camila Oliveira, Diretora Geral da Rio International School, compartilha que na RIS o uso de smartphones tem sido uma preocupação constante dentro das salas de aula, especialmente considerando o alto uso dos aparelhos durante o período das férias. Por conta dessa dificuldade, antes mesmo da implementação da lei, a prática já era proibida no ambiente escolar devido aos efeitos nocivos nos estudos.

“A Rio International School se inspira em diretrizes e experiências internacionais que defendem o uso consciente, intencional e pedagógico da tecnologia no ambiente escolar, especialmente em países que já avançaram na discussão sobre limites ao uso de dispositivos pessoais nas escolas. Essas referências são adaptadas à realidade brasileira considerando o contexto sociocultural dos alunos, o acesso à tecnologia e as necessidades específicas de cada faixa etária. O foco da escola não é excluir a tecnologia, mas educar para o seu uso responsável, equilibrando inovação, bem-estar e aprendizagem significativa”, afirma a diretora.

A crescente adoção de políticas que restringem ou proíbem o uso de celulares em ambientes acadêmicos, escolas e famílias se deparam com um desafio comum: como conduzir essa mudança de forma equilibrada, educativa e alinhada ao desenvolvimento infantil e adolescente. Mais do que uma regra isolada, a medida reacende debates sobre limites, convivência, aprendizagem e o papel da tecnologia na rotina escolar.

Dados de estudos internacionais e nacionais já indicam que o uso excessivo de celulares pode impactar a concentração, a interação social e o rendimento acadêmico dos alunos. Segundo Priscilla Montes, educadora e palestrante, especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil, em relação a proibição de celulares no retorno às aulas, as reações iniciais das crianças costumam variar entre irritação, ansiedade e resistência, especialmente nas primeiras semanas. Em muitos casos, o celular vinha ocupando um espaço central de regulação emocional durante as férias, o que gerou, neurologicamente falando, uma dependência tendo em vista a dopamina elevada no organismo.

“Quando esse recurso é retirado de forma abrupta, surgem sinais de inquietação e desorganização emocional. Estudos internacionais mostram que esse desconforto tende a ser temporário: após o período de adaptação, observa-se melhora na interação social, aumento da atenção em sala e redução significativa da dispersão”, explica Priscilla.

Além da comunicação, o momento de retorno às aulas exige atenção especial ao processo de readaptação dos estudantes. Após semanas de férias, muitas crianças e adolescentes precisam reorganizar horários, retomar responsabilidades e se ajustar novamente à rotina escolar. Nesse cenário, a ausência do celular, que muitas vezes se torna uma extensão do cotidiano durante o recesso, pode gerar resistência, ansiedade ou desconforto inicial.

“Do ponto de vista da neuroeducação, a ausência do celular reduz a sobrecarga de estímulos no cérebro e favorece a recuperação da atenção sustentada. Um relatório da UNESCO aponta que estudantes sem acesso ao celular em sala apresentam melhor desempenho atencional e menor distração, com impactos positivos no aprendizado. Além disso, pesquisas indicam que a retirada do aparelho contribui para maior autorregulação emocional, aumento da tolerância ao tédio e melhor adaptação às demandas cognitivas do ambiente escolar, além de mais interações sociais positivas e presenciais”, esclarece a educadora.

*Com edição de Lina Santiago.

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